‘Nós não sonhamos’

A campanha do Leicester City, um pequeno time da Premier League inglesa, é surpreendente. Faltando 5 rodadas para o fim do campeonato, o Leicester lidera com 72 pontos, sete à frente do segundo colocado, o Tottenham e 13 a mais que o Arsenal, terceiro colocado.

Pode ser que esse time nem seja campeão, afinal, há 15 pontos em disputa. Seria uma daquelas tragédias que só acontecem com times pequenos (e, talvez, com o Botafogo). Mas nada leva a crer que isso vá acontecer dessa vez.

Mesmo que o Leicester baixasse seu aproveitamento (que é de 72,7%) para míseros 40%, conquistaria 6 pontos. Se o Tottenham passasse para impressionantes 80% de aproveitamento (hoje tem 65,7%), conquistaria 12 pontos e, ainda assim, ficaria um ponto atrás do Leicester.

Feita a defesa contra uma improvável mudança de cenário, uso esse post para divulgar o depoimento de Claudio Ranieri, o técnico do Leicester, para o The Players’ Tribune, no dia 06 deste mês, numa tentativa de tradução, no texto que leva o título deste post:

Eu me lembro da minha primeira reunião com o presidente quando cheguei ao Leicester City, nesse verão. Ele se sentou comigo e disse: “Claudio, esse é um ano muito importante para o clube. É muito importante que nós permaneçamos na primeira divisão. Temos que ficar a salvo”.

Minha resposta foi: “Ok, certo. Nós vamos trabalhar duro nos treinamentos de campo e tentar alcançar isso”.

Quarenta pontos. Esse era o objetivo. Esse era o total que precisávamos para permanecer na primeira divisão, para dar à nossa torcida mais uma temporada na Premier League.

Naquele momento, eu nem sonhava que abriria o jornal no dia 4 de abril e veria o Leicester City no topo da tabela, com 69 pontos. No ano passado, nesse mesmo dia, o clube estava na rabeira da tabela.

Inacreditável.

Tenho 64 anos, então eu não saio muito. Minha esposa está comigo há 40 anos, assim, nos meus dias de folga, tento ficar com ela. Nós vamos ao lago perto de casa ou, quem sabe, se estivermos nos sentindo aventureiros, assistimos a um filme. Mas, ultimamente, de fato, tenho ouvido o barulho de todo o mundo. É impossível ignorar. Já ouvi que nós temos até mesmo novos torcedores nos EUA nos seguindo.

A vocês, eu digo: bem vindos ao clube. Estamos felizes de tê-los conosco. Quero que vocês gostes do jeito que jogamos futebol e quero que vocês gostem dos meus jogadores, pois sua jornada é inacreditável.

Talvez vocês tenham ouvido seus nomes agora. Jogadores que são considerados muito pequenos ou muito lentos para outros clubes grandes. N’Golo Kanté. Jamie Vardy. Wes Morgan. Danny Drinkwater. Riyad Mahrez. Quando cheguei no meu primeiro dia de treino e vi a qualidade desses jogadores, eu sabia o quão bons eles poderiam ser.

Bem, eu sabia que tínhamos uma chance de sobreviver na Premier League.

Esse tal de Kanté estava correndo tão intensamente que pensei que ele deveria ter um pacote de baterias escondidas em seu calção. Ele nunca parava de correr no treino.

Eu disse a ele: “Ei, N’Golo, devagar aí. Devagar. Não corra atrás da bola toda vez, ok?”.

Ele me disse: “Tá bom, chefe. Sim. Ok”.

Dez segundos depois, eu olho e ele está correndo outra vez.

Eu digo: “Um dia, vou ver você cruzar a bola e você mesmo cabecear”.

Ele é incrível, mas não é a única explicação. São várias as explicações para citar nessa temporada fantástica.

Jamie Vardy, por exemplo. Ele não é um jogador. Ele é um puro sangue. Ele tem necessidade de ficar livre no campo. Eu digo a ele: “você é livre para se movimentar como quiser, mas você tem que nos ajudar quando perdermos a bola. É tudo o que te peço. Se você começar a pressionar a marcação, todos seus companheiros vão te acompanhar”.

Antes de jogarmos nosso primeiro jogo na temporada, eu disse aos jogadores: “Eu quero que vocês joguem pelos seus companheiros. Nós somos um time pequeno, então temos que lutar de corpo e alma. Eu não ligo para o nome do adversário. Tudo o que quero é que vocês lutem. Se eles são melhores que nós, ok, parabéns. Mas eles têm que nos mostrar que são melhores”.

Foi uma energia fantástica em Leicester desde o primeiro dia. Começou com o presidente e passou para os jogadores, para a comissão técnica, para a torcida. Foi incrível o que senti. No estádio King Power, foi uma energia maravilhosa.

A torcida canta apenas quando temos a bola? Não, não, não. Quando estamos sob pressão, os torcedores entendem nosso sofrimento e cantam de coração. Eles entendem a complexidade do jogo e quando os jogadores estão em apuros. Eles estão muito, muito perto de nós.

Começamos a temporada muito bem. Mas nosso objetivo, repito, era evitar o rebaixamento. Nos primeiros jogos, estávamos ganhando, mas estávamos tomando muitos gols. Nos tínhamos que marcar dois ou três gols para ganhar cada jogo. Isso me preocupava muito.

Antes de cada jogo, eu dizia: “Vamos lá, pessoal, vamos lá. Sem tomar gols hoje”.

E tomávamos gols. Eu tentei todas as estratégias motivacionais.

Finalmente, antes do jogo com o Crystal Palace, eu disse: “Vamos lá, pessoal, vamos lá. Eu pago uma pizza para vocês se não tomarmos gol hoje”.

É claro, meus jogadores conseguiram que não fôssemos vazados contra o Crystal Palace. Um a zero.

Então, cumpri o nosso acordo e levei os jogadores para a Peter Pizzeria no centro de Leicester. Mas eu tinha uma surpresa para eles quando chegamos lá. Eu disse: “Vocês tem que trabalhar para tudo. Vocês têm que trabalhar para sua pizza também. Vamos fazer a nossa própria pizza”.

Então nós fomos para a cozinha com a massa, o queijo e o molho. Nós lançamos nossas próprias massas para o alto. Foi muito bom também. Eu mandei ver várias fatias. O que eu poderia dizer? Eu sou um italiano. Eu adoro pizza e massa.

Desde então, passamos vários jogos sem levar gols. Uma dezena de jogos sem sermos vazados desde a pizza, na verdade. Acho que não foi coincidência.

Temos seis jogos faltando e temos que continuar lutando de corpo e alma. É um clube pequeno mostrando ao mundo o que pode ser conseguido com alma e determinação. Vinte e seis jogadores. Vinte e seis cabeças diferentes. Mas um único coração.

Apenas alguns anos atrás, muitos dos meus jogadores estavam nas divisões inferiores. Vardy estava trabalhando em uma fábrica. Kanté estava na terceira divisão da liga francesa. Mahrez estava na quarta divisão francesa.

Agora estamos lutando por um título. Os torcedores do Leicester que encontro na rua me dizem que eles estão sonhando. Mas eu digo a eles: “ok, vocês sonham por nós. Nós não sonhamos. Nós simplesmente trabalhamos duro”.

Não importa o que acontecer no fim dessa temporada, acho que nossa história é importante para todos os torcedores ao redor do mundo. Dá esperança para todos os jogadores jovens por aí a quem disseram que eles não eram bons o suficiente.

Eles podem dizer por si mesmos: “Como chego ao nível top? Se Vardy pode, se Kanté pode, talvez eu também possa”.

O que você precisa para chegar lá?

Um grande nome? Não.

Um grande contrato? Não.

Você só precisa manter a mente aberta, o coração aberto, a bateria cheia e correr livre.

Quem sabe, talvez no fim da temporada, tenhamos duas pizzadas.

 

Claudio Ranieri

Inspiração ou plágio?

Ontem vi uma notícia de Jusin Timberlake (que não é um músico que eu goste de ouvir) foi processado por plágio pelo Cirque du Soleil (esse sim, sempre gostei de ouvir – e, posteriormente, de ver). O circo canadense alega que ele usou trechos da música Steel Dreams na sua Don’t Hold the Wall.

Realmente. Se você for direto ao minuto 4:04 da Don’t Hold the Wall, vai perceber o início da Steel Dreams. São 8 compassos de cópia. Há uma lenda urbana de que o uso de determinado número de compassos não caracterizaria plágio (e até por isso as trilhas sonoras de um Globo Reporter da vida – excelentes, por sinal – usariam apenas trechinhos das músicas e coisa e tal). Pouco importa. Um processo desses sempre é da ordem de milhões de dólares e dá uma certa dor de cabeça para as partes.

Sinceramente, não vejo nada de mal em fazer esse tipo de uso como “musica incidental”, desde que creditada. Parece que não foi o caso. A parte óbvia, é que se trata, de fato, da própria música dentro da outra, sem tirar nem pôr. Não é uma referência ou uso da mesma harmonia com outra melodia, o que, muitas vezes, nem é notado por grande parte das pessoas.

Isso lembra a história do sucesso das músicas com os mesmos 4 acordes (técnicamente não precisam ser os mesmos quatro, considerando-se o tom da música, mas sim pela relação harmônica entre eles). É o que a banda australiana Axis of Awesome mostrou nesse vídeo de 2011:

E depois fizeram uma versão bem produzida, que ficou muito legal. Mas esse é assunto para outro post.

Voltando aos plágios, fiz um breve levantamento sobre alguns casos emblemáticos. Quem não se lembra, desde que tenha idade para tal, do caso do Vanilla Ice que descaradamente “chupinhou” a música Under pressure, do Queen? Sobre esse e outros casos, vale dar uma olhada nesse vídeo aqui:

Uma busca no Google ou no Youtube traz todo tipo de “acusação” de plágios. Inclusive de pessoas que não percebem que o alegado plágio é uma versão (oficial, espero) da música em português do seu original, geralmente em inglês. Outros pegam um riff de guitarra ou de baixo e já saem falando que a música é cópia, quando, na verdade, todo o resto é diferente.

Mas o caso que mais me intrigava há muito tempo é o de uma música do Skank, Mandrake e os Cubanos (1998). Aproveitei o ensejo da notícia do Justin Timberlake para finalmente “ir atrás”. Tanto que até resolvi fazer esse blog.

Nas primeiras vezes em que ouvi a música do Skank, falava “isso é igual a Coming Up, do Paul McCartney” (essa última de 1980). Meus amigos, nem sempre músicos, faziam comentários como o que vi nesse blog aqui, que também fala do caso. O rapaz escreveu o seguinte nos comentários: “que maconha vc fumou em comparar mandrake e os cubanos com a musica do Paul McCartney. Pq nada com nada essa comparação“. Nada com nada? Então ouça as duas músicas aqui:

Ainda acha nada a ver? Já houve quem identificasse o riff da guitarra.

Mas eu resolvi (sem fumar nada, diga-se de passagem) ter o trabalho de mostrar o que sempre foi evidente para mim. Editei tudo no simples e leve – também livre, mas limitado em recursos – Audacity.

Para isso, tive que alterar o tom de uma das músicas. Preferi descer o tom da música do Skank e deixar o Samuel Rosa parecendo um cover sintético do Tim Maia a fazer o lendário Paul McCartney ficar com a voz do Alvin e os Esquilos. A diferença no andamento era mínima. Assim, foi possível fazer isso aqui (não está muito bem feito, é verdade, mas finalmente dá para provar a minha “tese”):

Em alguns momentos deixo só a Coming Up (0:55 e 2:03) – a progressão do baixo do refrão do Paul não é utilizada pelo Skank – e deixei tocar sozinha a do Skank (2:25) naquele que parece ser o único trecho que não “gruda” exatamente (só faltava ser tudo igual). Depois um fade out, pois o ponto já está demonstrado.

q.e.d.

E você? Conhece algum caso tão gritante como esse, mas que não seja tão falado por aí e nem tenha gerado processo de plágio? Deixa um comentário aí embaixo…